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por Monica Rosenberg – Todo ano, no dia 9 do mês de Av, o povo judeu para. Neste ano, a partir do pôr do sol desta quarta-feira (22), jejuamos, acendemos pouca luz, sentamos em bancos baixos ou no próprio chão e lemos o Livro das Lamentações, o Eichá. Há milhares de anos choramos dois Templos destruídos, e com eles, as expulsões, os massacres, tudo o que já tentaram fazer conosco ao longo da história.

Quem olha de fora pode estranhar. “Vocês vão passar um dia inteiro de luto por prédios que caíram há 2 mil anos?”

Vamos, porque a tradição judaica entendeu, muito antes de a psicologia nomear, algo simples: a tristeza que não tem lugar acaba ocupando TODOS os lugares. A dor que não olhamos de frente não vai embora: vaza, contamina o ano inteiro, o trabalho, a mesa de casa, o jeito de olhar para o futuro.

Em vez de fingir que a dor não existe, reservamos um dia no calendário e dizemos: é aqui, chore aqui, com tudo o que você tem. Não empurre para depois. E, justamente por ter esse dia, todos os outros ficam livres para a vida.

Repare no que vem depois. Seis dias após o 9 de Av chega Tu BeAv, uma das datas mais alegres do nosso calendário, dia de amor e de reencontro. E os sábados seguintes são chamados de sábados do consolo.

A tradição vai além e diz uma coisa linda: é no 9 de Av, no fundo do poço, que nasce a semente da esperança, a promessa de reconstrução. Não porque a dor seja pequena, mas porque nós nunca aceitamos que ela fosse a última palavra.

Cada um de nós carrega perdas que não têm data no calendário. Um luto, uma decepção, uma porta que se fechou. E, sem um dia para chorá-las de verdade, a gente termina chorando um pouco todo dia, sem perceber, sabotando a própria alegria com uma tristeza de fundo que nunca vira luto de verdade e nunca vira paz.

O 9 de Av ensina o contrário: dê à tristeza o dia dela. Inteiro, honesto, sem pressa. E, quando o sol se puser, levante-se. Volte para a vida com a consciência limpa de quem não fugiu da dor, mas também não se deixou morar dentro dela.

Para nós, judeus, a memória nunca foi para nos manter presos ao passado – é o contrário. A gente lembra para não repetir, para reconhecer o ódio quando ele reaparece com roupa nova, e para transformar o que doeu em responsabilidade com o presente. Reconstruir é um verbo profundamente judaico. Depois de cada destruição, a gente levantou de novo.

Então, neste 9 de Av, que choremos o que é preciso, sem culpa e sem pressa.

E que, amanhã, cada um de nós se levante. E que sejamos muitos.