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Um crime cometido por um indivíduo deve ser tratado pelo que ele é: um crime cometido por um indivíduo.

Parece óbvio, mas, diante de casos de enorme repercussão, essa regra básica do jornalismo e do debate público parece desaparecer. O caso recente envolvendo um empresário acusado de cometer violência extrema contra a própria esposa é um exemplo preocupante de como um episódio criminoso pode ser transformado em uma narrativa que ultrapassa completamente os fatos e passa a atingir pessoas que nada têm a ver com o crime.

O acusado deve responder por seus atos perante a Justiça. A vítima deve receber proteção, acolhimento e justiça. A sociedade tem todo o direito de discutir violência contra a mulher, relações abusivas, impunidade e os mecanismos que permitem que situações extremas aconteçam.

O que não faz sentido é transformar a origem religiosa ou étnica do criminoso em elemento central para atacar uma comunidade inteira.

Um indivíduo não representa milhões

O fato de uma pessoa ser judia não faz com que ela represente a comunidade judaica. Da mesma forma, um criminoso cristão não representa os cristãos; um criminoso muçulmano não representa os muçulmanos; e um criminoso ateu não representa os ateus.

A identidade de uma pessoa não transforma automaticamente suas ações individuais em responsabilidade coletiva.

No caso em questão, ainda existe um agravante: segundo as informações que circulam publicamente, o acusado não possui qualquer posição de liderança ou representatividade institucional que permita atribuir suas ações à comunidade judaica.

Ainda assim, sua identidade judaica passou a ser utilizada por algumas pessoas como uma espécie de atalho narrativo para introduzir discussões completamente diferentes: Israel, sionismo, conflito israelense-palestino e acusações dirigidas aos judeus de maneira geral.

Isso não é contextualização jornalística. É associação indevida.

Quando “contextualizar” vira preconceito

Existe uma diferença enorme entre informar que alguém é judeu e utilizar o judaísmo dessa pessoa como elemento para construir uma narrativa sobre os judeus.

A primeira informação pode ser um dado biográfico, quando realmente relevante. A segunda transforma uma característica individual em argumento contra um grupo inteiro.

É justamente assim que preconceitos históricos são alimentados: começa-se com um indivíduo e, por meio de generalizações, chega-se a milhões.

“Ele é judeu.”

“Ele tem determinadas opiniões.”

“Ele tem alguma relação com Israel.”

“Eles são todos assim.”

O salto entre essas afirmações é gigantesco — e intelectualmente desonesto.

E o que a Palestina tem a ver com isso?

Praticamente nada.

Um crime cometido no Brasil por um indivíduo judeu não constitui argumento contra Israel, contra o sionismo ou a favor de qualquer posição sobre o conflito no Oriente Médio.

É perfeitamente legítimo criticar o governo de Israel, discutir a guerra, defender os palestinos, defender Israel, criticar o sionismo ou debater qualquer outra questão política.

Mas essas discussões devem ser feitas a partir de fatos relacionados a esses temas.

Usar um crime praticado por um indivíduo como “prova” contra uma ideologia, um Estado ou uma comunidade religiosa é uma forma de associação que não se sustenta.

E, quando essa associação é feita especificamente porque o indivíduo é judeu, surge uma pergunta incômoda: por que sua identidade religiosa é considerada relevante para explicar o crime?

Se o criminoso fosse de outra religião, estaríamos fazendo a mesma conexão?

A imprensa precisa ter responsabilidade

A imprensa tem uma responsabilidade ainda maior nesse processo.

O jornalismo não existe apenas para informar o que aconteceu. Existe também para contextualizar corretamente os fatos e impedir que informações verdadeiras sejam utilizadas para produzir conclusões falsas.

Uma reportagem pode ser factual e, ainda assim, contribuir para o preconceito dependendo da forma como seleciona e conecta as informações.

Se a religião do acusado não possui relação causal ou contextual com o crime, transformá-la em destaque pode alimentar justamente aquilo que o jornalismo deveria combater: a generalização.

E existe uma diferença entre interesse público e curiosidade pública.

O fato de milhões de pessoas quererem saber algo não significa que aquela informação seja relevante para compreender o caso.

O antissemitismo também funciona assim

Muitas vezes, quando se fala em antissemitismo, imaginamos apenas manifestações explícitas de ódio contra judeus.

Mas o preconceito também pode aparecer de maneiras mais sofisticadas: na generalização, na culpabilização coletiva, na associação automática entre judeus e Israel, na exigência de que todo judeu responda pelas ações do governo israelense ou na utilização de qualquer judeu como representante de uma comunidade inteira.

Um judeu brasileiro não é o governo de Israel.

Um judeu brasileiro não é o Exército israelense.

Um judeu brasileiro não é responsável pelas decisões de nenhum primeiro-ministro israelense.

E, evidentemente, um criminoso judeu não representa os judeus brasileiros.

A comunidade judaica é formada por pessoas diferentes, com opiniões políticas, níveis de religiosidade, posições sobre Israel e visões de mundo completamente distintas.

Reduzi-la ao comportamento de um indivíduo é uma forma de desumanização.

Podemos condenar o crime sem atacar uma comunidade

É possível fazer duas coisas simultaneamente: condenar de maneira absoluta um crime brutal e, ao mesmo tempo, rejeitar qualquer tentativa de transformar o criminoso em símbolo de uma comunidade.

Aliás, essas duas posições deveriam ser inseparáveis.

A vítima merece justiça.

O acusado merece responder perante a Justiça pelos seus atos.

E a comunidade judaica merece não ser colocada no banco dos réus por um crime que não cometeu.

O debate público precisa recuperar uma regra elementar: culpa é individual, não coletiva.

Quando abandonamos esse princípio, abrimos uma porta perigosa. Hoje ela pode ser usada contra os judeus. Amanhã, contra qualquer outra minoria.

E talvez essa seja a parte mais preocupante de tudo.

Não é preciso gostar de Israel. Não é preciso ser sionista. Não é preciso concordar com posições políticas judaicas ou israelenses.

Mas é preciso reconhecer que transformar um crime individual em instrumento para atacar todo um grupo é preconceito.

E preconceito continua sendo preconceito, mesmo quando aparece disfarçado de “contexto”, “opinião política” ou “debate sobre a Palestina”.