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Em ‘La Petite Charlotte: Memórias de dor, raízes de amor’, Silvia Wolosker Levi reconstrói a trajetória da mãe, Charlotte Goldsztajn Wolosker, a partir de relatos que permaneceram em silêncio por mais de oito décadas.

Neste Dia das Mães, histórias sobre o vínculo entre mães e filhos ganham um significado ainda mais latente – especialmente quando marcadas pelo tempo, silêncio e amor. É a partir dessa perspectiva que o livro La Petite Charlotte: Memórias de dor, raízes de amor, recém-lançado pela Editora Integrare, reconstrói a trajetória de Charlotte Goldsztajn Wolosker, por meio da escrita de sua filha, Silvia Wolosker Levi.

O ponto de partida da obra é justamente um processo de vínculo e escuta entre mãe e filha. “Transformar em narrativa as memórias de minha querida mãe, Charlotte, que viveu a infância escondida durante a Segunda Guerra Mundial, foi uma experiência íntima e transformadora – e que fez com que ficássemos ainda mais conectadas, se é que isso é possível”, relata Silvia. 

Durante grande parte da vida, porém, essa história permaneceu em silêncio. Silvia lembra que tudo o que aprendeu sobre Holocausto e Segunda Guerra Mundial foi nos livros e na escola, nunca dentro de casa: “a dor era um território interditado”.

Foi apenas recentemente, ao ser questionada pelo neto sobre sua história, que Charlotte decidiu romper o silêncio. A partir desse momento, mãe e filha iniciaram uma jornada conjunta de resgate de memória – marcada por conversas longas, emocionadas e, muitas vezes, difíceis. “Enquanto minha mãe alternava entre choros, silêncios e lembranças, eu escrevia. Ela lia minhas anotações e se via diante de algo que nunca conseguiu nomear”, relembra a autora.

Hoje, aos 88 anos, Charlotte recorda desse período como uma experiência marcada mais pela necessidade de sobreviver do que pela compreensão do que estava acontecendo. “Eu era muito pequena, não entendia direito o que acontecia ao meu redor. Eu só sabia que precisava fazer o que minha mãe dizia. Era assim que seguia em frente”, afirma a sobrevivente.

Memória de guerra ganha voz entre gerações

Mais do que um relato sobre o Holocausto, La Petite Charlotte é uma narrativa sobre relação, escuta e reconstrução. A história de Charlotte, uma criança judia separada dos pais, obrigada a assumir outra identidade e a viver escondida, ganha nova dimensão ao ser contada pela filha, décadas depois.

Charlotte nasceu em 1938 e tinha apenas quatro anos quando foi afastada da mãe, em 1942, durante as perseguições nazistas na França ocupada. Para sobreviver, passou por esconderijos, incluindo um convento e a casa de uma família católica que a acolheu, mesmo sob risco. A sobrevivência, no entanto, não apagou o trauma – apenas o silenciou por anos dentro da família.

Romper o silêncio: uma maneira de combater o antissemitismo

O livro mostra como o silêncio pode atravessar gerações – e como a escuta pode rompê-lo. Durante cerca de um ano e meio, mãe e filha conversaram diversas vezes por semana para reconstruir, juntas, fragmentos de uma história que nunca havia sido totalmente contada. O processo foi marcado por pausas, emoções intensas e redescobertas.

O pai de Charlotte e avô de Silvia foi preso e deportado pelos nazistas, passando por campos de concentração – incluindo Auschwitz, um dos principais símbolos do extermínio de judeus durante a guerra. Contra todas as probabilidades, sobreviveu e conseguiu reencontrar a família após o fim do conflito, em 1945. Pouco tempo depois, todos imigraram para o Brasil, onde reconstruíram a vida.

A chegada de La Petite Charlotte às livrarias ocorre em um momento simbólico e, ao mesmo tempo, urgente. Segundo o Relatório Anual sobre Antissemitismo no Brasil 2025, divulgado pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB) no fim de março, o país registrou 989 ocorrências formais no último ano – número inferior ao pico de mais de 1.700 casos registrados em 2024, mas ainda assim 149% acima dos níveis de 2022, quando houve 397 registros.

O dado sustenta o diagnóstico do relatório de que o país vive um “novo normal”: o antissemitismo não retornou ao patamar anterior, mas se estabilizou em um nível estruturalmente mais elevado, com maior intensidade e disseminação, sobretudo no ambiente digital. O avanço dos casos ocorre na esteira do agravamento das tensões internacionais desde outubro de 2023, apontado no relatório como um marco recente para a intensificação desse tipo de ocorrência.

Um legado que ultrapassa a história familiar

Ao lançar La Petite Charlotte, Silvia busca ir além da preservação da memória de sua mãe: a obra se posiciona como um alerta sobre intolerância e um convite à reflexão. “Quero que o leitor compreenda que o ódio e a perseguição não começam nos campos de concentração, mas no silêncio, na negação e na indiferença”, destaca. “Naturalmente, as novas gerações não conseguem compreender plenamente a dimensão do que foi o Holocausto. Por isso, é fundamental que o amor fale mais alto e que os jovens entendam a partir de histórias como a minha que nenhum tipo de preconceito, seja por cor, raça ou religião, é justificável”, corrobora Charlotte.

Neste Dia das Mães, o livro propõe uma reflexão sobre o vínculo entre mães e filhos – não apenas como relação afetiva, mas como ponte entre passado e futuro, memória e identidade.

Serviço
Livro: La Petite Charlotte: Memórias de dor, raízes de amor
Autora: Silvia Wolosker Levi
Editora: Integrare
Páginas: 208
Preço: R$ 76,90
COMPRE AQUI

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